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A TRAVESSIA

 

Voltando com o material de sua busca, contou para Silva ter encontrado uma onça morta e presumia que era aquela do ataque da noite. Ela serviria de boi de piranha a ser jogada no rio, a fim de distrair as piranhas enquanto passariam de vau do rio. Foi feito o estrado para levar Vapor e arreado os animais, para a travessia. Na mula Trovoada foi colocada a bruaca e sobre ela amarrado o estrado onde seria levado Vapor.

Os dois homens deixaram os animais na praia e foram ver a onça morta. Abriram a barriga da fera, retirando o seu fato e colocaram em um saco. Pegaram partes de seus quartos e colocou junto. Este material foi levado até a parte de cima do rio, e atirado n'água.

Aquelas coisas foram jogadas dentro do rio, umas dez braças acima de onde teriam de passar. O saco afundou um pouco e boiou logo em seguida. Dele corria o sangue da fera e um odor fétido impestiava o ambiente. A superfície da água ficou até arrepiada com o movimento dos peixes indo para cima do saco com as partes da onça.

Naquele movimento de devoração, muitos peixes que não eram piranhas e foram atraídos para a armadilha foram estraçalhados por elas. Um zumbido como o esvoaçar de uma colméia vinha da água. Eram as piranhas emitindo sua fala, para outras de sua espécie, que vinham em cardume.

A ebulição da água parecia estar em movimento de fervura, tal a sanha daquelas temidas carnívoras aquáticas. A água ficava até turva riscada pelas nadadeiras costais das piranhas em volta dos restos no saco.  Silva e Juliano correram para os animais, empurraram-nos para a água. A mula Trovoada refugava não querendo entrar no rio, pois percebia o zumbido das piranhas.

O tempo urgia. Precisava aproveitar o entretenimento daquelas feras com a buchada e atravessar o rio. O caboclo matutou rápido e se lembrou da orelha da gatona retirando-a do embornal. Encostou o pedaço da onça nas ancas da mula e esfregou com força, tomando o cuidado para não ser acertado com um coice, que certamente viria em seguida.

A mula empacada deu um pulo pra frente, ligeira como um piscar d'olhos caindo no rio. Juliano pulou atrás, agarrando as crinas de seu rabo, sendo puxado por ela, rio adentro. No pique do nado, tangida pelo medo ela queria passar na frente dos cavalos, e quase se embaraça com estes. Seus instintos a alertavam para dois perigos grandes demais, um vindo da terra firme, representado pela onça, outro do rio, mandado pelas piranhas.

Seu diminuto cérebro não pode avaliar qual destes inimigos naturais, a onça ou as piranhas tinha prioridade, mas de qualquer forma o recurso era fugir. Na travessia, rodaram um pouco na fraca correnteza. Mas o vigor da mula, falou mais forte e ela e Juliano saíram na frente dos demais no barranco do outro lado.

 Durante a travessia, ela deu alguns zurrados, assustando os dois cavalos que não tinham sido açulados com a orelha da onça. O cachorro Vapor não se assustou, porque estava muito debilitado, e via a tramação de seu colega de viagem para forçar a mula na travessia.

A passagem do rio foi concluída, com sucesso, mas a viagem estava atrasada em mais de duas horas. O sol ia alto e eles seguiram a viagem nas terras do cel Antônio Calado. A comitiva seguia a passos de estrada, os homens falavam pouco. O local era muito perigoso.

Havia muitas onças vadiando na larga e índios fazendo emboscada. O produto desejado pelos gentios era a pinga e rapadura. Silva ia engendrando a conversa com o coronel de modo a não ofendê-lo. Tinham posições bem dispares em relação à escravidão indígena e negra.

Ele mantinha muitos escravos na sua fazenda trabalhando na produção de café. O assunto abolição lhe interessava muito, mas tinha de ter muito jeito para dar-lhe as notícias dos progressos dos abolicionistas. Não deseja perder a sua amizade. Era o vizinho mais perto e além do mais um homem rico e poderoso de cuja amizade dependia muito.

Falou com Juliano sobre o assunto, dizendo-lhe para evitar falar com os escravos e seus feitores, sobre as praticas da fazenda onde viviam. Todos os empregados recebiam salários. Tinham liberdade para procurar outro trabalho se o desejasse. Aqueles mais espertos aceitavam trabalhar como meeiros.

A estrada entrava por um túnel de mato, e chegava a escurecer. Novamente os homens ficaram em silêncio. A viagem se aproximava de um córrego vindo da planície do cerrado, com vegetação densa em suas margens, mas tendo a picada aberta na parte mais rala do mato. Em uma clareira menor havia vestígios de antigo pouso de caçadores, encontrou os restos de um rancho de muitos anos.

Neste local, contava a lenda teria morado por muitos anos um casal de escravos fugidos, e que foram mortos por um capitão do mato da fazenda do coronel. Eram bruxos, praticantes de magia negra, assim diziam. Muitas vezes os caçadores de escravos comandados por capitão do mato, chegaram ao local, mas nada viam a não ser grandes cupinzeiros e dois tocos pretos restos de antigas queimadas. A lenda conta destes tocos ser o casal de negros, disfarçados.

 Um dia outro escravo conhecedor dos segredos da religião vodu, convertido em capitão do mato, foi neste esconderijo, e a mandinga dos fujões falhou. Eles foram mortos, exemplarmente, sendo os seus corpos, pendurados em arvores nas proximidades das roças de café, para que todos vissem e soubessem por que foram mortos. A gente humilde daquela região tinha o local como o Olimpo dos dois heróis. Juliano seguia distraído, com o pensamento voltado para aquele dia de sorte em quando encontrou Jovelina tirando o café do pilão no monjolo.

Ao chegar às ruínas do rancho, resolveram parar. Havia uma mina d'água correndo em uma bica de barro. Caia em um estuário de pedras onde fora antigamente a área de serviços do rancho. Em volta do caminho do rancho para a bica, cresceram imensas touceiras de erva-cidreira e moitas de mastruz. Muitos outros remédios caseiros usados pelos escravos resistiam no lugar, como funcho, marcelinha, arruda, poejo, hortelã, losna, sete dores etc.

Juliano apeou do cavalo Xibungo e o deixou pastando no capim gordura crescendo sedoso e cheirando longe com o mormaço, entre a mina e o rancho. Ajudado por Amado, desceram o cachorro do estrado em cima de Trovoada. Toda a tralha foi retirada e armada a mariquinha para o caldeirão do feijão tropeiro. Juliano, antes de qualquer trabalho, foi até aquela moita de mastruço, apanhou um punhado dela com galhos finos, folhas e sementes, embrulhou tudo em um pedaço de pano, e bateu a moqueca com um pedaço de pau sobre uma pedra.

 O pano foi ficando esverdeado e finalmente virou uma pasta viscosa. Pegou este pano com a pasta, retirou as bandagens de Vapor e aplicou aquela "pomada" em toda a extensão do ferimento. Refez a bandagem e colocou água fresca ao alcance do cachorro, ele deveria estar com sede.

Aquela planta fazia verdadeiros milagres não deixando os ferimentos se inflamar. Ainda mais sendo da plantação daquele lugar santo.  Quem conhecia a lenda do casal de escravos, sempre se curava. Uma ocasião a sinhazinha Judite, filha do coronel Calado, foi picada de cobra. Sem remédio conhecido para curar a menina, o patrão acabou por permitir dela ser tratada pelo pagé do seus escravos.

A nega velha que cuidava destes assuntos despachou um de seus negrinhos bons de sela para o rancho encantado. Deu-lhe os nomes das plantas a serem trazidas. Foi feito os arranjos com as rezas de sua fé. A moça desfalecida tinha sua alma encomendada na casa grande por um padre mandado buscar pelo coronel.

Quando a negra-velha-pajé chegou com os preparados o padre quis renegá-la, mas em vista do desejo do coronel, acabou por aceitar. Os preparados foram feitos, ali mesmo à vista do padre. Fizeram uma roda de candomblé, sob os protestos veementes do homem da igreja romana.

Os trabalhos de cura dos ritos umbandistas demoraram mais de hora. Os cantos eram estranhos. O padre não quis presenciar os finalmente quando pegaram a mocinha a colocaram no meio de uma roda de escravos, vestidos de branco e rodearam a doente com pólvora preta.

Foi posto fogo na fandanga. A fumaça branca levantou. Inicialmente era de uma cor escura, mas à medida de novas levas queimadas o cheiro de pólvora com essências de outras plantas cheirosas ia ficando de odor agradável e a fumaça cada vez mais branda.

O lampião do grande salão foi religado. O patrão chamado para ajudar na recuperação d filha. A moça tinha recobrado as cores. A cobra que a picou no final da tarde, veio rastejando e piando no rumo da última fogueira de pólvora. O patrão sacou de sua garruchona de dois canos e ia matá-la.

Os escravos cambones impediram que o fizesse. O padre protestou, pensando da cobra atacar outras pessoas. Pelo contrário ela veio se enrolou no meio do fogo e foi dando botes na fumaça até morrer esturricada. À medida que a cobra ia morrendo, a menina recobrava forças.

Readquiriu as cores, os movimentos. Voltou como se voltasse de um sono profundo. Os chás do pos trabalho espiritual foram ministrados. O padre ficou desmoralizado, não podendo fazer o seu oficio de encomendar uma alma para o seu Deus. Estava longe do Arraial e teve de bater o poso ali. No dia seguinte a Sinhazinha o recebeu na mesa farta do café da manhã.

O homem tido como santo se recusava a acreditar no milagre presenciado. Entretanto, não se fez de rogado, quando dois meses depois encontrou outra pessoa, ofendido de cobra. O despachou para a fazenda do coronel Calado, mas este demorou e chegou morto. 

ESTA PASSAGEM DO ROMANCE “ARRAIAL DOS COUROS” FOI PREMIADO NO CONCURSO ARTE E CRIATIVIDADE DO SESI (EDIÇÃO 2001)

 

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